Entrevista com o escritor Habib Zahra sobre a nova obra “O dia em que a morte sambou”

 

Se mudou do Egito para a cidade cultural de Olinda, é pai de um menino fofíssimo de cabelos ruivos, casado com sua esposa que é ilustradora do seu mais novo livro “O dia em que a morte sambou”, o famoso escritor Habib Zahra, nos concedeu uma entrevista após o  lançamento, aqui em Recife na livraria cultura. Ele falou sobre como é escrever um livro para crianças e relatou sua trajetória de escritor.
Como é morar numa cidade histórica como Olinda ?
Não moro em Olinda por acaso, foi o lugar que eu escolhi depois de rodar bastante e viver em várias outros cidades e países. O que mais me atrai em Olinda não é necessariamente que ela é uma cidade histórica, mas principalmente sua riqueza artística e cultural. A cultura de rua, os ateliês abertos, as sambadas nos becos e terreiros, os blocos nas ladeiras o ano todo, os músicos e artistas do mundo inteiro chegando aqui para beber da fonte e participar das brincadeiras. Isso é uma maravilha, os verdadeiros tesouros de Olinda.
O fato que o sítio histórico, onde nós moramos é patrimônio histórico tombado pelo IPHAN, nos garante que as casas não vão ser derrubadas para construir prédios e condomínios, que sempre terá algum cuidado extra em relação as construções. Isso é muito importante para tentar manter a cultura de rua viva.
 
Onde você buscou inspiração pra escrever o seu novo livro ?
O meu novo livro, “O dia em que a Morte sambou” foi inspirado pela vivência com os brincantes da cultura popular. Participando das sambadas de coco, maracatu rural, cavalo marinho, etc… aqui em Pernambuco, fiquei impressionado pelo vigor e a alegria dos brincadores mais antigos, muitos com mais de 80 anos, brincando, dançando e cantando a noite inteira com seus netos e bisnetos sem o menor sinal de cansaço ou constrangimento. Isso me fez perceber o quanto é socialmente construida nossa percepção negativa da velhice, e o quanto temos que aprender com os mestres da cultura popular, que têm uma relação bem mais saudável com o tempo e a vida em geral…
E quem fala de vida também fala, inevitavelmente, de Morte, pois o jeito que encaramos a velhice na nossa cultura tem tudo a ver com nosso pavor da Morte. É por isso que escolhi introduzir a Morte, como figura fantástica, nesse cenário. Pode parecer contraditória, mas,  é justamente com a aparição desse personagem que eu mais consigo ilustrar a incrível alegria de viver e profunda sabedoria do brincante.
A imagem de rebolar com a Morte, foi a Ayahuasca que me proporcionou. Foi uma experiência muito intensa, ouvi a Morte me chamando, estava com certeza que minha hora tinha chegado, mas não tinha medo, me entregava, alegre e aberto, querendo celebrar minha partida com uma última requebrada.
 
O que a história conta ?
É sobre Seu Biu, um velho brincante que não deixa nem a velhice nem a Morte acabar com sua alegria de viver.
O livro agrada só ao público infantil ?
Nem eu nem Valeria gostamos muito desse rótulo de “literatura infantil”. Fazemos livros para todo mundo, e na verdade muitos dos nossos leitores são adultos.  É verdade que tomo um certo cuidado para deixar o texto simples e límpido, para não usar palavras muito “eruditas”, para escrever de uma forma bem perto do como se fala, com o coração. Mesma coisa com as ilustrações, não fazer uma coisa muito viajada, muito abstrata… E assim tentamos criar uma obra mais acessível, que não exclui nem as crianças nem as pessoas menos instruídas.
Mas isso é apenas ao nível da forma. Ao nível do conteúdo, não temos medo de abordar assuntos considerados pesados ou delicados. Isso são justamente os assuntos mais interessantes, os que mais precisam ser conversados e debatidos! Nos meus contos, falo de homofobia, preconceito, racismo, exclusão social, machismo, crise de identidade, morte. Não acredito que nenhum desses assuntos seja inapropriado para o publico infantojuvenil. Agora, claro, tudo depende de como são introduzidos…
O que acontece, infelizmente, com muito da chamada “literatura infantil” hoje em dia é que autores e editores ficam receosos de falar disso ou daquilo, para não ofender os país e “proteger” as crianças, e o resultado são livros totalmente vazios, que os adultos não tem a menor paciência de ler, e que as crianças só gostam porque nunca foram oferecidos algo melhor. Esses livros subestimam muito a inteligência da criança, e não a estimulam a questionar, criar…  Um bom livro infantojuvenil, ao meu ver, tem que encantar ambos adultos e crianças.
Sobre a apresentação, como é fazer uma apresentação nada convencional só para crianças ?
Aqui vou repetir o que eu falei na pergunta anterior, nossas apresentações são para todas as idades.
Você já pensou em escrever livros para adultos ?
Por enquanto, não. Já publiquei varias artigos e poemas para “adultos” no passado, mas não tenho mais a paciência necessária. Para mim, escrever para adultos (pelo menos o tipo de coisas que eu escrevia) era tentar fazer um texto soar o mais complicado possível, o mais inacessível e erudito, e assim impressionar o leitor com todo meu conhecimento linguístico e referencias culturais. O meu objetivo no momento, com o tipo de contos que eu escrevo, é exatamente o contrário: pegar ideias aparentemente complicadas e tentar coloca-las na linguagem mais simples e acessível possível, usando, com a ajuda de Valeria, uma combinação de imagens e palavras. É um desafio muito mais interessante, e sinto que assim estou contribuindo pela democratização das ideias. “O último golpe do Lobo Mau”, por exemplo, é bastante inspirado nas ideias de Dostoiévski, na sua existencialização de conceitos cristãos como o pecado, o perdão, o inferno e o paraíso. Conseguir colocar toda a beleza e sutileza do pensamento desse autor maravilhoso ao alcance de uma criança ou de uma pessoa que não tem condições de encarar “Os irmãos Karamazov” para mim é uma coisa incrivelmente gratificante!
Qual a obra que você mais gosta e que mais lhe inspira ?
Se eu tinha que escolher uma única obra do chamado gênero “infantojuvenil”, seria, sem dúvida “O Pequeno Príncipe”. É realmente um livro incrível.
Como é escrever o terceiro livro junto com a sua esposa ?
É um desafio muito grande, coloca muita pressão sobre nosso relacionamento. Temos ritmos muito diferentes, e somos ambos super exigentes e sinceros. Isso complica muito. Quando estamos produzindo um livro sempre juramos que vai ser nossa última parceria, que não da mais para misturar as coisas…  Mas, uma vez que publicamos o livro e que passa a tempestade, tenho, de repente, uma nova ideia para um livro, mostro para Valeria, nos empolgamos e aí começa tudo de novo… Nunca aprendemos!
Você tem sonhos, pensa em realizá-los ?
 Muitos! Isso é o X do problema!! Mas pouco à pouco, vamos os realizando, um por um, tem que ter paciência… Fazer um livro juntos foi um sonho durante muitos anos. Já publicamos 3. O nosso sonho esse ano foi montar uma peça de teatro juntos, só nos dois, para ser mais independente e poder levar o espetáculo onde vamos. Foi um grande desafio, mas conseguimos e estamos super felizes! O próximo passo seria de comprar uma Kombi e ficar viajando pelo Brasil e a América Latina, apresentando o espetáculo, vendendo ou trocando nossos livros e aprendendo com os mestres da cultura popular… Parece incrível! Mas primeiro precisamos nos organizar direitinho, ver qual é o momento mais propício, se é preciso conseguir algum patrocínio, ou se temos como se sustentar apenas com as vendas de livros e apresentações.
Qual seu próximo passo ?
 Divulgar o livro e o espetáculo, conseguir prêmios, elaborar projetos de circulação e coloca-los em editais, agendar apresentações nas escolas, conseguir lançamentos e pontos de venda fora do estado, traduzir e publicar em outras línguas… Queria ser apenas escritor, mas, infelizmente, tem toda a parte burocrática. Para viver da pesca, precisamos vender nosso peixe, e está cada vez mais difícil diante da situação econômica do país. Tem que ser muito criativo e persistente, mas não vamos desistir!
-Vi que você também agrada o público adulto, como é lidar com eles ?
Acho que já respondi essa pergunta.
Se puder pode me contar um pouco da sua história… como você veio pra cá pro Recife e como começou a carreira de escritor ?
Antes de chegar aqui, estava vivendo na Califórnia. Tinha acabado de me formar em biologia pela UC Berkely e estava trabalhando em um laboratório em São Francisco. Do ponto de vista profissional/material, estava ótimo, mas estava morrendo de tédio, sentia que estava perdendo meu tempo, que alguma coisa mais excitante estava me esperando. Resolvi largar tudo e sair explorando o mundo, a procura de alguma paixão, alguma coisa para encher esse vazio que eu sentia vivendo nos Estados Unidos… Fiz um grande brechó, vendi tudo que eu tinha e comprei uma ida simples para o Brasil, que seria minha primeira etapa. Cheguei em Olinda, e descobri a música, o teatro e a cultura popular.
A minha carreira de escritor foi uma consequência disso, minha vontade de compartilhar essa experiência incrível pela qual eu passei, todas as descobertas que essa viagem me proporcionou, sobre o mundo e sobre mim mesmo, todas as coisas lindas que eu vi, as coisas feias também, e daí nasceu meu primeiro livro, O Burro Errante.

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Teatro de sombras e lançamento do livro infantil de Habib Zahra na livraria cultura

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Quem não gosta de contar histórias e quem já não ouviu uma boa história contada por sua mãe ou avó, quando era criança? Ontem, domingo, dia 27 na livraria Cultura do Recife Antigo estive com o casal Habib Zahra e Valeria Soto, (e fiz uma entrevista que vai sair em um próximo post. Aguardem) no teatro de sombras do lançamento do seu mais novo livro O dia em que a morte sambou.

Foi uma tarde muito especial de autógrafos, contação de histórias e  apresentação do teatro de sombras com  bonecos apresentados pelo próprio autor, egípcio e que mora em Olinda. O espetáculo-lançamento especial do livro, projeto da Funcultura, ocorreu pela primeira vez na livraria e contou com apresentação de teatro de sombras e exposição, com entrada gratuita e venda de livros e pinturas no local das ilustrações originais da obra. Continuar lendo

Palco giratório apresenta o espetáculo: “Nordeste – A Dança do Brasil” no Teatro Santa Isabel

O espetáculo ” Nordeste- A dança do Brasil”, do balé popular do Recife que completa 18 anos, irá se apresentar nesta sexta-feira (15), dando um passeio pelas principais manifestações artísticas e culturais da região : Folguedos e auto natalinos. subirá ao palco às 20 horas. A apresentação, que faz parte do Circuito Especial do Palco Giratório, integrará a programação do mês de maio.

O festival é movido com um espetáculo de cor, brilho e beleza, um retrato da riqueza cultural que se baseia na tradição da cultura popular do Nordeste. Danças típicas do Carnaval, do São João, do Natal, e expressões de origem afroameríndia estarão presentes,marcando  a consolidação da linguagem de dança que o Balé criou.

A direção geral é de Ângela Fischer e a direção artística e coreografias são assinadas por André Madureira. O elenco conta com a participação de Angélica Madureira, Joana Lima, Marcella Figueiras, Samantha Rúbya, Simone Santos, Tita Pereira, Adriano Silva, Renan Ramo, Anderson Vieira, Douglas Marques, Gustavo Rocha, Jefferson Arruda, Márcio Nascimento e Marconi Stylebrasil.

Os ingressos custam R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia) e podem ser adquiridos na bilheteria do teatro.

Para mais informações é só acessar a página do site : http://sesc-pe.com.br/hotsites/2015/palco-giratorio/

Entrevistando um humorista

É possível que algumas pessoas já tenham visto essa matéria, e é possível também, quem conhece o grupo, se surpreenda que o grupo tenha acabado. Não sei como está a situação deles agora, mas sei, que tive a oportunidade de assistir a uma apresentação do grupo Os Embromation, aqui em Recife, e achei sensacional. Essa matéria, só avisando, é antiga. A fiz há mais ou menos dois anos atrás quando tive a oportunidade de entrevistá-los, e quando estava no auge da polêmica do humorista Rafinha Bastos ter contado uma piada sacana ao vivo .  Estou postando essa entrevista aqui só para relembrar, porque rir e falar de comédia não tem tempo e nem hora. Confiram:

Evilásio de Andrade, Mauro Monezi e Thiago Gondim (2012).

A irreverência e a forma de apresentar, fez com que o humor, no Brasil, ganhasse um cenário novo, espontâneo e divertido, que tem agradado diversos públicos. A repercussão que esse novo estilo de humor vem causando sobre o público-alvo, são boas e desastrosas, levando os humoristas a dosarem suas piadas, e avaliarem a forma como se expressam diante do público. Diante do atual caso, que envolve o humorista e apresentador Rafinha Bastos do CQC, que falou algo, visto como uma piada de mau gosto, levou algumas pessoas a se perguntarem, até que ponto a piada deixa de ser piada e passa a ser um ato de desrespeito? Mauro Monezi, do grupo OS EMBROMATION , explica os caminhos que a improvisação está tomando, sua experiência de um modo geral, com o humor e a sua relação com o grupo. O ator e improvisador, do grupo os Embromation, fala sobre liberdade de expressão e seu contato com o humor.

 

Qual é a diferença entre standup comedy e grupo de improvisação?

  Mauro Monezzi- Para ser bem objetivo, o Stand Up é quando,uma pessoa, sem figurino, sem um personagem, e com um texto decorado, sobe no palco para contar uma história engraçada, que na maioria das vezes é algo do cotidiano. Ele vai com o objetivo de arrancar risadas do público. Já a improvisação é diferente, pois se assemelha mais ao Teatro, com base nas construções de histórias, de personagens, e enrredos, podendo ter figurino ou cenário. O improviso surge de algum “motor”, alguma ação, emoção, palavra, situação. Como foi que surgiu a ideia de fazer um grupo de improvisação? conto na faculdade AESO, e tive de apresentar um projeto para consegui-lo. Daí eu tive a idéia de fazer um espetáculo de improvisação, que não foi aceito no início. Minhas inspirações iniciais foram baseadas na ideia de um programa inglês/americano Whose Line Is It Anyway?”, e os barbixas, que estavam em alta, naquela época. Então depois da minha primeira apresentação no cineteatro, surgiram oportunidades em outros lugares de mostrar o meu trabalho e o do grupo, que hoje, tem dois anos de existência.

 

Como foi que você conheceu os outros integrantes do grupo??

Conheci Tiago Gondim em 2005, quando participamos de um mesmo espetáculo do colégio. Era o meu primeiro ano de espetáculo, e o dele, já era o segundo. Depois de estabelecida a nossa amizade, começamos a fazer apresentações e entre outros espetáculos que envolviam o teatro. Em 2008, quando trabalhávamos em um grupo do SESC, com a peça Tartufo,conhecemos Evilásio de Anfrade, que foi chamado para fazer a luz do espetáculo, inesperadamente, e está conosco até hoje. Porque hoje em dia, o humor está tão voltado para o standup para a arte do improviso? Para ser um bom comediante, tem que saber improvisar? Eu acredito que o improviso é bom pra todo mundo, não só para o comediante. O improviso exercita o raciocínio rápido para as coisas. Todos nós improvisamos, mesmo os não atores. Para nós atores, é importantíssimo saber improvisar, mas não improvisar como um meio “fim”, como é a proposta do espetáculo “Os Embromation Jogos de Improviso”, mas saber improvisar para ajudar a construir um personagem. O importante, em um espetáculo é saber se virar, naquelas horas, principalmente, que se pedem muito mais do ator, a criatividade. Por exemplo, algo que estava no texto da peça, que não apareceu, ou quando de repente aquela cadeira de cena que você sempre senta em certa hora do espetáculo,não está lá, aí corremos sempre o risco de não saber o que fazer nessas horas, por isso o improviso é tão importante. Eu tenho ele, como algo que é natural nas pessoas, e acho que isso é mais evidente em um comediante.

“Eu acredito
que o improviso
é bom pra todo
mundo, não só
para o comediante.
Todos
nós improvisamos,
mesmo os
não atores.”

Na sua opinião, o modo como Rafinha Bastos agiu, ao soltar aquela piada de mau gosto, à cantora Vanessa Camargo, foi certo?

 Acho que o Rafinha fez uma piada desnecessária, mas também acho que ele já havia feito piadas desse gênero antes e não me lembro de ter tido uma repercussão como agora. As pessoas são muito sensíveis quanto ao humor. Você sempre tem que ser o correto, o ético, o moral. Quando você sai disso, elas se sentem ofendidas, e os comediantes que mais tem liberdade de
expressão para brincar, e agir como o Rafinha agiu, são os maiores alvos da sociedade. Eu não me canso de ver pessoas que entre seus amigos, fazem brincadeiras desse tipo, e todo mundo ri com as besteiras que são ditas. Mas quando é alguém da mídia, as críticas são mais pesadas.

Como um comediante deve agir em meio à liberdade de expressão?

Nos dias de hoje, é necessário que o comediante tenha muito cuidado com o que vai falar ao fazer uma piada, porque ele pode ser trucidado pela sociedade. De fato, é mais fácil ser lembrado por algo ruim que ele venha a cometer, do que por algo bom que tem feito. Depois que o ato virar fofoca, não tem mais como resgatar a imagem do comediante.